Futebol & Política

Cá venho eu observando umas pessoas se engalfinhando devido a diferentes opiniões quanto a copa do mundo. Eram quatro, principalmente: a)As que querem que a Dilma e o Brasil ganhem; b)As que querem que a Dilma e o Brasil percam; c)As que querem que a Dilma perca e que o Brasil ganhe; d)As que querem que a Dilma ganhe e que o Brasil perca. Mas eu aqui preguiçoso, adiei tanto este texto que o Brasil já perdeu e a copa já acabou. Então vou indo logo, antes que a eleição também acabe e essas palavras se tornem inúteis.

A questão que, então, cabe-me tentar compreender é essa: O desempenho negativo da seleção brasileira de futebol nos dois últimos jogos da copa pode afetar a tentativa de reeleição da PresidentE?

Quem é da opinião contrária tem bons argumentos. Diz que Esporte e Política são matérias humanas de naturezas completamente opostas, o que é verdade. Diz que não há nexo causal entre a administração pública e o desempenho futebolístico, o que é parcialmente verdade (A CBF é uma associação privada, mas não se pode negar o amparo que ela recebe do governo, vide o financiamento dos estádios para a copa. E, não obstante, não se pode ser uma entidade privada monopolística sem auxílio estatal). Diz que o aspecto psicológico esportivo é passional e que o da Política é racional e que esses não se misturam, o que, na minha humilde opinião, é muito relativo.

Já quem é da opinião afirmativa tem um argumento pouco fundamentado, mas peculiarmente irrefutável. Diz sobre o aspecto psicológico de insatisfação e de como isso pode ser extravasado sobre o Governo, dado a proximidade das datas dos eventos. Isso também me parece relativo. Porém há algo a se acrescentar: certamente que em uma mente bem letrada, iniciada na intelectualidade, poderia distinguir as duas situações e não deixar um afetar o outro; contudo essas mentes são minoria no Brasil. Logo, sabendo que na democracia o que conta não é a “qualidade do voto” mas a quantidade, há de se considerar este pensamento, ainda que não o tenham embasado tanto, tendo em vista que a maioria eleitoral (classes C e D) não constituem a elite intelectual e, portanto, podem reagir dessa maneira. Ora, logicamente, se uma causa certa (a insatisfação com a seleção) tem consequências possíveis (a não reeleição da Dilma), eu não posso excluir alternativas até que o evento se verifique.

Mas podemos ir mais além. O espírito desportivo é capaz de consequências interessantes. Usemos o famoso exemplo dos lutadores de box. Quando quebram as costelas mas continuam lutando como se nada sentissem. O que ganha consegue se curar muito mais rapidamente. O que perde tem uma velocidade de recuperação inferior ao da média. É certo que uma experiência própria, e não assistida como é o caso, tem impactos mentais muito mais intensos. Mas não se pode negar que o humor do expectador-espectador acompanha o desenvolvimento da partida. Não posso cair na besteira de não lembrar o leitor de que analiso a questão dentro do que é pertinente a ela, assim é óbvio que o desempenho esportivo de um país não é a única influência passional, entretanto é a única que interessa neste texto.

Essa teoria implica que, se houver uma espécie de “catarse” reproduzida em larga escala, pode-se fazer um povo tolerar por mais tempo as insatisfações do seu cotidiano. E, ao que parece, os dirigentes do Estado creem fortemente nisso. Por que outro motivo a Koreia do Norte transmitiria a seu povo a falsa notícia de que ganhou a copa? Por que outro motivo os USA investiriam tanto nas Olimpíadas? Por que outro motivo a ditadura militar teria feito propagandas futebolísticas na década de 70 se nem havia eleições diretas?

E vejamos bem, os Antigos já acreditavam nisso. Ou haveria outra razão para Roma fazer o “circo” na política do “pão&circo”? Os próprios gregos encaravam suas disputas esportivas como uma guerra. E quanto mais se aprofunda nisso, mais se pensa isso. O Esporte é uma característica tão essencial quanto a religião para uma civilização (unless you are the mongols).

Portanto, nas palavras de Wislawa Szymborska, concluo com o poema “Filhos da época”

Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz rem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.

Qual questão, me dirão.
Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável..
Ou mesa de conferência cuja forma
se discutia por meses a fio:
deve-se arbitrar sobre a vida e a morte
numa mesa redonda ou quadrada.

Enquanto isso matavam-se os homens,
morriam os animais,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas.

 

O Futebol, sendo o que representa para a maioria dos brasileiros (nem tanto para mim), está longe de ser só futebol.